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Os loiros do Argeu

Luis Fernando Verissimo

- Dedinho pra cima, não.

Era a única ordem que os estrangeiros recebiam do Argeu, durante o ensaio. Desfilassem como quisessem. Sambassem como pudessem. Afinal, ninguém esperava que, numa tarde, todos aprendessem a sair pela passarela como brasileiros natos. Não tem gente nascida aqui que ainda não aprendeu a ser brasileiro nato? Brasileiro não tem aprendizado rápido. Não tem curso intensivo. Ser brasileiro ou é uma fatalidade ou é uma ciência.

Mas algumas regras precisam existir, mesmo para brasileiros amadores. Por exemplo: dedinho indicador pra cima, não. Dedinho de chinês, espetando o ar, definitivamente não.

- Fingers up, no. Understand? No.

Ou "Les doigts elevê, non" Ou "Los dedos para arriba, nunca!".

"Das fingers uber alies, verboten!" "Diti in su, ma". Às vezes Argeu tinha que se conter para não abater um dedinho levantado a tapa. "Nein! Nein!" Também precisava controlar as Carmens Mirandas. Não era raro os estrangeiros começarem a dançar como a Carmem Miranda: passinhos pra trás, mão tocando um cotovelo, depois o outro. Como nos filmes.

- No, no, no. Carmem Miranda, no good!

Argeu era o encarregado dos estrangeiros na escola. Era o homem das relações exteriores. E seu departamento funcionava como uma máquina. Bagunça era o resto do Brasil, as escolas eram oásis de organização, cantões suíços de seriedade e eficiência. As fantasias eram encomendadas e pagas com antecedência pelos estrangeiros. Quando eles chegavam, encontravam a fantasia pronta, nas medidas certas. Todos conheciam as suas alas, o horário da concentração, tudo certinho. Havia apenas um ensaio, na tarde do desfile, para os estrangeiros se familiarizarem com as fantasias, ouvirem o samba enredo e adquirirem a ginga possível — que para Argeu se resumia em fazer o que quisessem, menos desfilar com os dedinhos indicadores para cima. Ou como a Carmem Miranda.

- Fingers up, no! Carmem Miranda, no! As regras mínimas.


Alguns estrangeiros voltam todos os anos. Já são conhecidos do Argeu. Tem a dinamarquesa Trudi, que na primeira vez, quando o Argeu tentava instruí-la na arte do desfile acelerado com tamancos, perguntou, excitada:

- Is this the bossa nova?

Argeu teve que explicar que não, não era a bossa nova. Pensando bem, não era nem samba. Pensando melhor, nem marcha. Já era outra coisa, um andamento indefinido, cronométrico, talvez suíço também, para a escola não se atrasar e perder pontos. Trudi não entendeu o desencanto do Argeu e no ano seguinte surgiu com uma coreografia pronta para desfilar correndo, que o Argeu aprovou. Pelo menos não tinha dedinho levantado. E no ano passado a Trudi mostrou que não só treinara o ano inteiro, sendo, mesmo, uma das poucas passistas a se destacar no meio da correria geral, já que com o andamento mais rápido só as supertreinadas aparecem - e, nas palavras da própria Trudi, "dizem na pé"-, como trouxe outras 17 dinamarquesas bem ensaiadas. Que este ano serão 34.


Durante o desfile, Argeu sacode a cabeça com impaciência, grita seguidas advertências para os estrangeiros - 'Olha o tempo! "Vamlá! Vamlá!" e "Abaixem os dedinhos!" - e chega a empurrar alguns deslumbrados que ficam para trás. Mas não esconde um certo orgulho com o que chama de "Os meus loiros". Os loiros do Argeu formam um segmento cada vez maior da escola, e são, cada vez mais, brasileiros convincentes. Este ano as dinamarquesas da Trudi prometem até recuperar um espetáculo perdido dos desfiles, o malabarismo de pandeiristas em torno de uma passista - a própria Trudi, claro - culminando numa pirâmide humana, com todos arregalando os olhos e pondo a língua para as câmeras, apesar dos gritos de "Olha o tempo!" e "Vamlá!" à sua volta. As dinamarquesas são ótimas no pandeiro.


E o Argeu não dá dois anos para a porta-bandeira da escola ser uma austríaca.


Domingo, 22 de fevereiro de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.